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JULGAR

Difícil, e nada certo, é julgar alguém antecipadamente. Alguns dias atrás, entrei no ônibus e encontrei o cobrador mais gentil que eu já havia visto. Ele desejou boa tarde para cada um dos passageiros que estavam na minha frente e iam passando pela roleta. Quando chegou a minha vez, ele me olhou nos olhos e com um sorriso também disse: "boa tarde!". Eu respondi desejando o mesmo, e sentei no meu lugar. Às vezes um simples gesto como aquele pode alegrar o dia a dia das pessoas, mesmo que elas não percebam. Eu sentado imaginei que ele deveria ser uma pessoa muito feliz, uma pessoa muito boa também, que sabia levar a vida da melhor forma possível. Naquele momento eu realmente gostei daquele gesto e não sei porque fiquei admirado com a sutileza que ele desejava boa tarde aos passageiros, mesmo que muitas vezes os mesmos não respondiam de volta. "Que pessoa legal esse cara!", eu pensei na hora. O que aconteceu em seguida me fez refletir e escrever esse texto.
    Alguns minutos depois de ter sentado em meu banco, eu vi o cobrador com um pequeno pedaço de papel que ele devia estar anotando alguma coisa. Conscientemente, ele amassou o papel com as mãos e jogou no chão, sem nem olhar, como se fosse algo normal. Eu vi aquilo quase como se fosse em câmera lenta. Fiquei surpreso, e por um segundo, chocado. De imediato eu pensei, indignado: "mas que cara filho da p...!". 
    Em menos de três minutos eu tive pensamentos totalmente opostos por uma pessoa. Por dois simples gestos, sem nem ao menos saber o nome do cobrador. E percebi como é complexo julgar alguém, principalmente quando nem conhecemos a pessoa. O ser humano toma diversas decisões durante o dia, algumas boas, outras nem tanto; outras ruins, para não dizer péssimas, e ainda assim somos constantemente julgados, mesmo que por pensamento, por outras pessoas. Na maioria das vezes o julgamento ocorre de forma natural, sem nem percebermos que estamos julgando, e apenas um olhar atravessado pode servir para nos entregar.
    O fato de eu ter ficado indignado com aquela atitude foi porque eu assumi que se o cobrador jogou o papel no chão dentro do ônibus, ele certamente faria isso na rua, o que não é um gesto correto. O ponto é: eu não sabia disso. O fato de ele ter jogado o papel no chão não quer dizer que ele faça isso na rua. Alguém certamente varre o corredor do ônibus, caso contrário ele estaria sempre sujo com a sujeira acumulada. Quem sabe, seja o cobrador a pessoa que faça essa tarefa, e por não ter onde colocar o papel amassado ele resolveu jogá-lo no chão para mais tarde varrê-lo. A questão novamente é: eu não sabia, e mesmo assim o julguei.

    Talvez seja realmente natural esse pré-julgamento de pequenas atitudes como essa. Muito complexos nós somos, e muito complexa é a maneira de lidar com nós mesmos. Hoje em dia com apenas uma palavra somos taxados de diversas maneiras, quando nem sempre fomos corretamente interpretados ou sequer ouvidos.
       
    Eu não tenho a solução mágica para uma melhor convivência entre as pessoas com essa complexidade de julgamentos que existe. Só sei que ao invés de ter julgado o cobrador pelo seu ato, eu poderia simplesmente ter juntado o papel do chão.


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