Pular para o conteúdo principal

MORO NUM PAÍS TROPICAL

          Mudei. Mudei a maneira de me referir aos meus próprios textos. Antes eu os chamava de “postagens”, termo totalmente vinculado à Internet, ou aos blogs. Esse termo deixou de ser diferente para se tornar comum. Hoje em dia até o Twitter começou a ser chamado de microblog. Algo está errado: um blog é feito de postagens, e postagens são muito mais do que apenas 140 caracteres. Não interessa. O fato é que mudei a maneira de me referir aos meus textos, de postagens para “crônicas”. Mas isso não tem nada a ver com o que eu ia escrever na minha crônica.

          Por que as músicas brasileiras, pelo menos as que ficam famosas repentinamente, estão cada vez piores? Quando eu digo que as músicas estão ficando piores, eu me refiro às músicas de “modinha”, como a ridícula “Rebolation” ou a irritante “Minha Mulher Não Deixa Não”. Existem outras, mas essas são mais atuais, e as que eu menos suporto. Como é possível, que com apenas uma frase ridícula, alguém consiga conquistar milhões de pessoas? Como alguém consegue inventar, ao mesmo tempo, uma nova língua e uma letra idiota, como a segunda música mencionada? A resposta é muito simples: os brasileiros não leem. Não há o habito, muito menos a cobrança, de leitura nas escolas públicas, que é onde estudam (quando estudam) a maioria dos brasileiros. Isso acarreta nos analfabetos funcionais, que são pessoas que não entendem absolutamente nada do que leem ou escrevem.

          A primeira frase da música “Minha Mulher Não Deixa Não”, “Ei! Tu quer beber?”, foi feita por um analfabeto funcional, pois o autor, com certeza, não prestou atenção às aulas de Português, onde deveria ter aprendido que a conjugação do verbo “querer” na 2° pessoa do singular é “queres”. E o que ele faz? Espalha a ignorância para 14 milhões de outros analfabetos (segundo dados da Ipea, de 12/2010).

          E a música “Rebolation”? Que... Coisa... Mais... Ridícula. Quando ouvi ela pela primeira vez no rádio, eu dei uns tapas no aparelho para verificar se a música não tinha trancado, pois eu não aguentava mais ouvir aquela frase...eu não vou escrevê-la. Por que ele não canta “vai ler alguma coisa, sa, alguma coisa”? Pensando bem, acho que os ouvintes não entenderiam. Falta de livros para serem lidos não é o problema. Temos uma das literaturas mais ricas do mundo, e também grandes autores, como Machado de Assis, José de Alencar, Cecília Meireles, Érico Verissimo, Mario Quintana, Moacyr Scliar, entre outros. Há também um paradoxo: no Brasil, os livros são caros porque os brasileiros não leem, e os brasileiros não leem porque os livros são caros. Mas, caso fossem baratos, duvido que eles leriam. Engraçado, não?

          Conclusão: os brasileiros não aprendem. Vamos aos dados. O Brasil é o terceiro país mais desigual da América Latina (07/2010), segundo o índice Gini, que é o mais usado para medir a desigualdade de renda. Quanto mais perto de 1, pior. O Brasil tem índice 0,56 e o Haiti, só para se ter uma ideia, tem 0,59. A educação seria uma das soluções para acabar com tanta desigualdade, uma educação pública de qualidade é essencial. Mas infelizmente, isso não existe, e vai demorar muito para que exista. Por que as faculdades públicas são cheias de alunos de classe média para cima? Porque são eles que têm condições de pagar pelos melhores colégios e cursinhos. Como já foi dito, o Brasil tem 14 milhões de analfabetos, em geral, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea, em 12/2010). O Japão, após a 2° Guerra Mundial, tomou como uma das medidas investir na educação, atitude que o colocou entre os mais ricos do mundo, atualmente. Não foi só o Japão que fez isso, eu só o citei por causa da situação que os japoneses estão passando, e ainda assim mostram ter condições de se reerguer. Mas o Brasil, meu amigo, é uma “criança”, e ainda não aprendeu com os “grandes”. A explicação para isso, grosso modo, é que vivemos em um país oligárquico. Apenas 5% da população pertencem à classe “A”, e mesmo assim, essa minoria é que predomina. Para se dar bem, ou você nasce em uma família que tenha uma boa condição financeira, ou pare de ler agora e comece a lutar para chegar aos poucos que se dão bem nesse país. Felizmente, é possível viver bem, sem fazer parte dessa oligarquia. Mas é preciso muito esforço, dedicação e estudo.




fontes:http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/07/brasil-permanece-um-dos-mais-desiguais-do-mundo-apesar-de-progresso-diz-onu.html
http://g1.globo.com/vestibular-e-educacao/noticia/2010/12/analfabetismo-cai-no-brasil-mas-aumenta-em-cinco-estados-diz-ipea.html
http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/brasil-e-o-terceiro-pais-com-a-pior-desigualdade


Texto publicado originalmente em 30/03/2011, no site fufa2008.blogspot.com.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ESCRITOS CUNEIFORMES

A História sempre foi baseada em registros, sejam eles livros, pergaminhos, documentos, depoimentos, escritos cuneiformes ou arte rupestre. A História pôde ser contada através de simples desenhos nas paredes ou até mesmo por símbolos cuneiformes, pois são uma forma de registrar algum fato que aconteceu. Na era da internet, não é de se esperar que esses atos continuem; mas eles continuam.

          O ser humano, por natureza, gosta de ser valorizado, gosta de ser elogiado, e normalmente aquele que diz “não, é exagero seu” é porque quer ouvir o elogio novamente. O Colégio Militar de Porto Alegre é, por excelência, um histórico, renomado, e desejado estabelecimento de ensino. Pesquisas e resultados mostram que é um dos melhores colégios do Rio Grande do Sul, e do país. Os valores lá ensinados não são aprendidos em qualquer lugar. Não é à toa que já estudaram sete ex-presidentes da República em suas salas de aula.

O Casarão da Várzea prova sua competência pelo grande número de apr…

ALÍVIO

Li certa vez em um livro que existia apenas um pecado, denominador comum entre todos eles: o roubo. Quando se mata alguém, se rouba o direita à vida, rouba dos filhos o pai e da esposa o marido. Quando se trapaceia, se rouba o direito à justiça; a mentira rouba a verdade. Aquilo fez muito sentido para mim na época.
          Ora, das boas sensações que podemos sentir, todas se resumem em uma só: o alívio. Quem já passou por algum aperto, imaginando a pior das situações que podiam ter acontecido, e no fim tudo não passou de especulação sabe muito bem dizer como foi grande o alívio ao descobrir que nada de ruim aconteceu. Ou então quando estamos morrendo de vontade de comer aquele prato delicioso que não comemos há tempos. O alívio após nos deliciarmos com o mesmo é gigantesco, uma sensação de felicidade plena.
          Quem nunca se apaixonou? Cada troca de olhares com a pessoa amada é um mini ataque cardíaco. O coração acelerado. Mãos suando. Pernas tremendo. Quando finalment…

JULGAR

Difícil, e nada certo, é julgar alguém antecipadamente. Alguns dias atrás, entrei no ônibus e encontrei o cobrador mais gentil que eu já havia visto. Ele desejou boa tarde para cada uma dos passageiros que estavam na minha frente e iam passando pela roleta. Quando chegou a minha vez, ele me olhou nos olhos e com um sorriso também disse: "boa tarde!". Eu respondi desejando o mesmo, e sentei no meu lugar. Às vezes um simples gesto como aquele pode alegrar o dia a dia das pessoas, mesmo que elas não percebam. Eu sentado imaginei que ele deveria ser uma pessoa muito feliz, uma pessoa muito boa também, que sabia levar a vida da melhor forma possível. Naquele momento eu realmente gostei daquele gesto e não sei porque, fiquei admirado com a sutileza que ele desejava boa tarde aos passageiros, mesmo que muitas vezes os mesmos não respondiam de volta. "Que pessoa legal esse cara!", eu pensei na hora. O que aconteceu depois me fez refletir e escrever esse texto.
 …